Tema

Se analisarmos o mundo armados de mente aberta e olhar crítico e se fizermos algumas pesquisas é fácil apercebermo-nos que há muita "coisa" curiosa, difícil de explicar no actual paradigma da ciência.
Investigamos áreas díspares, desde a história antiga à física moderna, passando pela psiquiatria e filosofia.
Comecemos pela percepção. Será que vemos aquilo que esperamos ver? Como fazem os animais para prever catástrofes de modo a protegerem-se? Será que percepcionam algo para além dos nossos sentidos? Ou será que os nossos sentidos também o percepcionam mas nós não tomamos consciência por não estarmos preparados para tal? Os nossos sentidos fazem chegar ao cérebro o estrondoso número de 400 mil milhões de bits por segundo, mas apenas 2 mil chegam ao nosso consciente. O que acontece a tudo o resto? O nosso cérebro trabalha continuamente a tentar criar uma história do mundo para nós, livrando-se de imensa informação "supérflua". Esta selecção baseia-se nas nossas vivências, memórias e emoções. Sim, no fundo vemos aquilo que esperamos ver.
Religião. Fenómeno profundamente controverso. Estará a ciência em conflito com a religião? Ambas são duas abordagens à verdade, são as duas faces da mesma moeda. Se a ciência e o espírito investigam a natureza da realidade ilimitada – e obviamente quanto mais ilimitada é, mais perto da realidade – irão certamente cruzar os seus caminhos. Terá a religião de reformular todos os seus princípios de modo a acompanhar o estrondoso avanço da ciência? Sobreviverá a religião a esta reforma?
Cérebro. Pura biologia e química? É engraçado pensar o quanto o Homem investe na ciência, na tecnologia e o pouco que investe no seu próprio estudo, no estudo da mente humana. O estudo do cérebro é uma área enormemente fascinante, muito divertida de explorar. Se calhar quando compreendermos quase na plenitude o funcionamento do nosso cérebro talvez possamos aplicar esse conhecimento à construção de computadores capazes de fazerem escolhas autonomamente, dotados de sentimentos e emoções, capazes de sonhar e ter uma conversa normal, talvez um dia.
E até onde vai a Teoria Quântica? O que a teoria quântica revelou é tão intrigante que soa mais a ficção científica: as partículas podem estar em dois ou mais sítios ao mesmo tempo. O mesmo “objecto” pode ser uma partícula, localizável num local, ou uma onda, distribuída pelo espaço e pelo tempo.
Einstein disse que nada pode viajar mais depressa do que a velocidade da luz, mas a física quântica demonstrou que partículas subatómicas parecem comunicar instantaneamente sobre qualquer extensão de espaço.
Medicinas alternativas estão "na moda" e algumas já deram provas por milénios, falam-nos em "energias". Surgem histórias de paranormal mesmo vindas da comunidade científica, e muitas delas referem-se também a "energias". Pela teoria quântica apercebemo-nos que quanto mais de perto analisamos a matéria menos material se torna o mundo, no fundo passa a ser constituído por pacotes de energia e informação.
Há metafísica bastante em não pensar em nada, escreveu Caeiro. Nós estamos dispostos a pensar. Estes temas sempre nos despertaram a atenção porém nunca foram explorados no nosso percurso escolar, ou se o foram, não ficámos satisfeitos. Achamos que são importantes na nossa formação pessoal e cívica bem como da população em geral.
Não é difícil fazer grandes questões, mas quando tentamos responder a alguma surgem-nos muitas mais. Talvez encontremos um fio condutor que nos ilumine.
Temos aprendido a não confiar muito no que nos dizem, afinal aquilo que é tomado como verdadeiro muda drasticamente em questão de décadas. Também não descuro nenhuma peça do puzzle pelo simples facto de não encaixar nas que já estão montadas. Gostamos de consultar o nosso eu elevado quanto à validade das observações.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Fraudes do Paranormal 2

As Caras de Bélmez
Rostos espectrais apareceram no chão de uma cozinha de Bélmez de la Moraleda, na província espanhola de Jaen.
No número 5 da Rua Real de Bélmez (agora chama-se Rua Maria Gómez), produziu-se o acontecimento paranormal mais conhecido da Península.
O fenómeno. Em Novembro de 1971, Maria Gómez Câmara, de Bélmez, alegou que havia uma mancha em forma de rosto humano no chão da sua cozinha. Depois de a raspar, voltara a aparecer. Passados poucos dias, surgiram outras.
A fraude. Passados seis meses, o jornal El Ideal publicava os resultados de análises que demonstravam que as caras tinham sido desenhadas com nitrato e cloreto de prata. O presidente da Sociedade Espanhola de Parapsicologia, Ramos Perera, afirmou que os exames com infravermelhos à primeira das caras tinham revelado que continha pigmentos. Uma comissão formada pelo Governo espanhol chegou à conclusão de que se tratava de uma fraude e um relatório revelou que a cara conhecida por La Pelona correspondia à marca de uma sola de sapato de tamanho 39. Nos anos 80, com o boom das revistas dedicadas a fenómenos paranormais, surgiram novos rostos que foram identificados com Franco e com uma figura das colunas sociais, Isabel Preysler. Em 2003, Iker Jiménez e Luis Mariano Fernández escreviam no livro Túmulos Sem Nome que os rostos pertenciam a familiares de Maria Gómez que tinham morrido durante a Guerra Civil espanhola. Para obter uma certa semelhança, só tiveram de manipular as imagens. Porém, todas as análises, como as do Instituto de Cerâmica e do Vidro, que revelou a presença de zinco, chumbo e crómio, usados no fabrico de tintas, confirmaram a fraude.
A explicação. Foi tudo uma vigarice concebida para ganhar dinheiro; por exemplo, no auge turístico, as fotos dos rostos só podiam ser adquiridas ao fotógrafo da povoação. Em 2004, após a morte de Maria Gómez, um grupo de adeptos da parapsicologia afirmou ter descoberto mais imagens na casa onde ela nascera. Na realidade, fo¬ram criadas através de um método muito prosaico: molha-se o chão e, antes de secar, procuram-se formas nas manchas de água e volta-se a cobrir os traços com água, azeite e vinagre.
Segundo descobriu o jornalista Javier Cavanilles, a autarquia de Bélmez de la Moraleda estava interessada em comprar a casa onde tinham aparecido os rostos para criar um Centro de Interpretação, mas o preço pedido pelos familiares era proibitivo: 600 mil euros, quando valia, na realidade, apenas 84 mil. A história foi desmontada por Cavanilles e Mánez no livro As Caras de Bélmez: um mistério "ridículo, divertido, curioso e tacanho", afirma Cavanilles; "uma típica patranha infantil", acrescenta Máhez.

O Triangulo das Bermudas

Barcos e aviões desaparecem sem motivo numa área formada pelas Bermudas, a Florida e Porto Rico.
Em 1974, Charles Berlitz escreveu no livro O Mistério do Triângulo das Bermudas que centenas de navios se tinham perdido nessa zona do Atlântico sem deixar rasto.
O fenómeno. Um dos mais falados foi o desaparecimento do Voo 19, que tinha descolado em 1945 com cinco torpedeiros que, pouco depois, efectuavam uma transmissão aflitiva: "Perdemos o rumo." Em 1963, só foram recuperados dois salva-vidas do cargueiro Sulphur Queen.
A fraude. Segundo Larry Kusche, que publicou, em 1974, a informação que reu¬nira sobre os desaparecimentos no livro O Mistério do Triângulo das Bermudas Resolvido, tudo começou "com uma investigação descuidada, elaborada por autores que se serviram de erros, raciocínios incorrectos e sen-sacionalismo".
A explicação. O chefe de esquadrilha do Voo 19 tinha a bússola avariada, voava sem relógio e os outros aviões não tinham instrumentos operacionais. Com o mar alvoroçado, não puderam amarar e despenharam-se quando ficaram sem combustível. No caso do Sulphur Queen, navegava entre vagas com dezenas de metros de altura e ventos ciclónicos. Há desaparecimentos inventados, como o do barco norueguês Stavenger, em 1931. Em 1977, chegou mesmo a dizer-se que fora avistada uma pirâmide com 143 metros submersa no Triângulo da Atlântida. "Condições meteorológicas adversas e o carácter imprevisível do ser humano conseguem ultrapassar as narrativas mais ambiciosas de ficção científica", dizia, em 1974, um porta-voz da Guarda Costeira norte-americana, cujas lanchas passam mais tempo do que quaisquer outros barcos no triângulo maldito. Porém, já sabe: nunca deixe que a verdade estrague uma boa história.

O Sangue de São Genaro
No primeiro sábado de Maio e a 19 de Setembro, o sangue seco de São Genaro, padroeiro de Nápoles, liquefaz-se milagrosamente.
Nessas datas, uma procissão leva uma ampola com o suposto sangue do santo que, segundo a hagiografia católica, foi um bispo decapitado pelo imperador Diocleciano (284-305).
O fenómeno. O milagre produz-se há 600 anos e os napolitanos estão convencidos de que os aguarda uma grande catástrofe se não se verificar. Isso teria acontecido em diversas ocasiões, como em 1527, quando uma praga assolou a cidade, e com o terramoto de 1980, no qual 3000 pessoas perderam a vida.
A fraude. Em 1799, quando o Exército francês entrou em Nápoles, o clero profetizou que o milagre não aconteceria. O general francês Jean-Étienne Championnet ordenou ao seu ajudante: "Diga ao sacerdote que, se o sangue não ficar liquefeito, mando bombardear Nápoles." O milagre não tardou a produzir-se.
A liquefacção não se produz apenas nos dois dias da procissão: acontece mais de doze vezes por ano. A Igreja não permite que se retire uma amostra da substância. Foi apenas possível proceder a exames espectroscópicos através da ampola, os quais determinaram que contém sangue, embora possa haver mais qualquer coisa.
A explicação. Há alguns anos, a revista Nature publicava que o sangue de São Genaro é uma mistura isotrópica, que solidifica e liquefaz se for adequadamente agitada. Luigi Garlaschelli, professor de química orgânica da Universidade de Pavia, reproduziu o milagre com uma mistura de calcário, cloreto de ferro hidratado e água salgada. O mágico norte-americano Joe Nickell fez o mesmo com óleo, cera e sangue-de-dragão, uma resina vermelha elaborada com diferentes vegetais. O mesmo milagre ocorre em Espanha, no dia 26 de Julho de cada ano, com o sangue de São Pantaleão conservado no altar-mor do Real Mosteiro da Encarnação de Madrid, juntamente com um osso do santo. Também não se sabe se a ampola contém apenas sangue. Porém, há um pormenor curioso: foi doado ao mosteiro pelo vice-rei de Nápoles.

A Maldição de Tutankamon
Os arqueólogos que intervieram na descoberta do túmulo do faraó egípcio morreram em circunstâncias misteriosas.
Quando um membro da equipa de escavações, Lord Carnarvon, morreu passado poucos meses da abertura do túmulo, correu o rumor de que a fatalidade se devia a uma maldição.
O fenómeno. Um jornal publicou hieróglifos que estariam presumivelmente à entrada do local: "Quem entrar neste túmulo sagrado será em breve visitado pelas asas da morte". Em menos de um ano, faleceram o meio-irmão de Carnarvon, a sua enfermeira, um médico que fez uma radiografia da múmia e um milionário que estivera no local. Até o canário de Howard Cárter, responsável pela descoberta do túmulo, foi devorado por uma cobra no dia em que ele ia ser aberto.
A fraude. A suposta inscrição nunca existiu. No total, morreram seis pessoas das 26 que estiveram directamente envolvidas nas escavações. A maldição parece ter sido muito selectiva: apesar de ter sido oficialmente aberto no dia 29 de Novembro de 1922, Cárter e Carnarvon já lá tinham entrado antes, secretamente. A rainha de Inglaterra também escapou da maldição, embora tivesse visitado o túmulo em Fevereiro de 1923. O mais incompreensível é que se salvou o responsável por tudo, Howard Cárter.
A explicação. De que morreu Carnarvon? Alguns sugerem que terá sido uma doença pulmonar, a histoplasmose, causada pelo fungo Aspergillus niger. O epidemiologista De Miller, da Universidade do Hawai, é de opinião que teria sido uma septicemia provocada por um corte mal sarado no rosto. Em 2002, Mark R. Nelson, do Departamento de Epidemiologia e Medicina Preventiva da Universidade de Monash, na Austrália, publicou no British Medicai Journal um estudo sobre 44 indivíduos ocidentais que estavam no Egipto nas referidas datas, incluindo 25 que tinham enfrentado os perigos do túmulo. A conclusão não podia ser mais linear: as pessoas expostas à suposta maldição tinham morrido, em média, aos 70 anos, face aos 75 anos daqueles que não se tinham exposto. Isto é, praticamente todos chegaram a velhos, com ou sem uma visita ao faraó.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Fraudes do Paranormal

Parte do artigo publicado na edição nº 129 da revista “Super Interessante”:

Todos estes mitos tiveram uma evolução semelhante. Após um início relativamente discreto do suposto fenómeno, produz-se uma explosão informativa. Permanece na moda durante anos e enche páginas de jornais e programas de TV. Ao fim de certo tempo, o interesse começa a desaparecer, e hoje só muito raramente surge uma notícia sobre esses casos. A escolha deste decálogo exemplar obedece a vários motivos: fazem todos parte do nosso imaginário cultural, surgem nas conversas sobre fenómenos paranormais e, o que é mais importante, ainda há quem defenda a veracidade destas histórias e dedique tempo e esforço à procura de provas que as corroborem. Os bons mitos nunca morrem, porque não queremos que se extingam. Queremos acreditar.
M.A.S.

O Caso Roswell

Em Julho de 1947, uma nave extraterrestre (e a sua tripulação) ter-se-ia despenhado no deserto do Novo México, perto de Roswell. Os ufólogos alegaram que o Governo norte-americano tinha silenciado o caso.
O ano de 1995 ficará na História pelo delírio mediático desencadeado pelo caso Roswell, verdadeira insígnia dos que defendem que a Terra é visitada por seres de outros planetas.
O fenómeno. Em 1994, um senador do Estado do Novo México, Steven Schiff, solicitou um inquérito oficial sobre a estranha nave que teria aparecido, em 1947, em Roswell. Quem se encarregou disso foi o Tribunal de Contas (GAO), o braço de investigação do Congresso norte-americano, que tem acesso a toda a documentação oficial, qualquer que seja o grau de classificação. Em meados de 1995, o GAO afirmou não ter encontrado qualquer documento que fizesse referência a uma nave naquela povoação. Caso resolvido.
Todavia, os ufólogos asseguraram que os arquivos tinham sido eliminados. Agarraram-se a uma frase do relatório do GAO que dizia: "Muitos arquivos organizativos da Força Aérea que cobriam esse período foram destruídos, sem que haja indicação de qualquer autoridade que assim o tivesse determinado." A que período se refere e quais eram os documentos? Os que continham informações sobre financiamentos e assuntos administrativos, entre Março de 1945 e Dezembro de 1949. Nesse caso, segundo os ufólogos, foi precisamente em Dezembro de 1949 que deixou de haver relatórios sobre a nave.
A fraude. Dois anos antes, em 1993, surgira o célebre filme sobre a autópsia de um ET. Tudo começou quando o produtor televisivo Ray Santilli viajou até aos Estados Unidos para obter material sobre Elvis Presley. Durante a viagem, conheceu Jack Barnett, um antigo operador de câmara da Força Aérea norte-americana. O reformado contou-lhe que tinha 92 minutos de uma filmagem que o Governo daquele país ocultara durante 50 anos. As imagens mostravam o exame médico feito a um tripulante da nave alienígena numa tenda de campanha, as autópsias dos extraterrestres na base aérea de Fort Worth e a visita do presidente Truman ao local onde tinham sido guardados os destroços do acidente. Foi um negócio lucrativo: dependendo das fontes, Barnett recebeu 100 ou 200 mil dólares pelo filme, e uma estação israelita ofereceu a Santilli vários milhões pelos direitos, mas o produtor preferiu vendê-los país a país. Nos Estados Unidos, a Fox pagou 250 mil dólares, pelo que se tornou o filme fraudulento mais rentável da História.
Segundo o operador de câmara, Jack Barnett, quando os militares chegaram ao local, "os monstros estavam a chorar. Protegiam-se com alguns objectos, mas desferimos uma forte pancada na cabeça de um com a culatra de uma espingarda. Três das criaturas foram arrastadas para fora da nave e atadas com cordas e fita adesiva. A última já estava morta." O mais estranho é o facto de os extraterrestres não terem enviado uma operação punitiva para nos apagar do mapa, em jeito de vingança.
A explicação. Uma das coisas que mais assustavam o Governo norte-americano na década de 1940 era que os russos conseguissem produzir uma bomba atómica. Por isso, em 1945, lançaram diversos programas para detectar explosões. Um destes era o Projecto Mogul: um sensor de elevada precisão colocado num balão a grande altitude para detectar as ondas de choque produzidas pelas explosões. Um desses balões, que fazia parte do Voo 4, caiu em Julho de 1947, perto de Roswell. O aspecto irónico da história é que houve, efectivamente, um encobrimento: disfarçou-se de balão meteorológico aquilo que era, na realidade, um detector de explosões atómicas.

Os Círculos nas Searas
Na década de 1980, começaram a surgir estranhos desenhos geométricos nos campos ingleses. Seriam mensagens de alguma inteligência interdimensional?
Nesta história, há duas partes: os brincalhões que desenharam os círculos e aqueles que ainda insistem em acreditar na sua origem misteriosa.
O fenómeno. No Verão de 1980, foi observado um círculo nas planícies de Salisbury. Um jornalista do Wiltshire Times sugeriu que era demasiado perfeito para ter sido causado pela chuva, o vento ou um vendaval levantado pelos helicópteros que percorriam a zona. Seria uma marca deixada por naves extraterrestres?
A fraude. 0 interesse dos media fez multiplicar o aparecimento de círculos por todos os campos de cereais ingleses, sobretudo perto de lugares considerados mágicos: os megalitos de Stonehenge e Avebury ou a colina de Silbury. O fenómeno começou a adquirir complexidade e chegaram mesmo a aparecer sofisticadas formas fractais nos campos.
A explicação. 0 engenheiro Colin Andrews, para quem as figuras seriam produto de uma interacção entre a consciência humana e o meio ambiente, afirmou, em 1999, que a CIA quisera recrutá-lo. Segundo Andrews, a proposta consistia em fornecer-lhe apoio nas investigações e fazê-lo aparecer nos media mas, passados alguns anos, deveria dar uma conferência de imprensa e dizer que os círculos constituíam uma fraude. A realidade, porém, era muito menos emocionante, pois tudo não passou de uma gigantesca brincadeira. Tudo começou quando, numa tarde de Verão, Doug Bower e Dave Chorley, dois reformados com vontade de se divertir, decidiram desenhar marcas circulares numa seara perto de Cheesefoot Head, no Sul de Inglaterra. Alcançaram notáveis níveis de perícia. Os proprietários das quintas onde apareciam começaram mesmo a cobrar bilhetes de entrada às pessoas que queriam admirá-los, como se fossem museus.

O Monstro de Loch Ness
São muitos os que acreditam que um ser antediluviano vive placidamente nas negras águas deste lago escocês, oculto do olhar de todos.
Nessiteras rhombopteryx. É assim que é designado pelos seus admiradores, que asseguram tratar-se de um plessiossauro.
O fenómeno. Estreou-se no papel couché dos mistérios em 1933, quando um leitor anónimo do jornal Inverness Courier, que veio a apurar-se ser um funcionário público da região, relatou que o casal MacKay tinha visto na superfície do lago algo que só poderia ser provocado por uma criatura enorme.
A fraude. Esse ano e o que se seguiu foram frutíferos em aparições do monstro, conhecido por Nessie, o qual, talvez cansado dos paparazzi, viria a desaparecer até 1951. A sua chegada a Hollywood ocorreu em 1960, quando o engenheiro aeronáutico Tim Dinsdale filmou uma espécie de corcova que se movimentava na foz do rio Foyers. Nessie não deve ter gostado da experiência e voltou a desaparecer durante anos. Dinsdale afirmou que a penúria de resultados se devia a uma presença demoníaca: podia sentir vibrações satânicas no lago.
A explicação. Em 1987, foi levada a cabo uma exaustiva operação de busca que contou com um orçamento de 1,2 milhões de euros. Duas dezenas de lanchas equipadas com sonar esquadrinharam durante três dias o lago escocês, a maior massa de água doce do Reino Unido, com 37 quilómetros de comprimento e 1,68 km de largura, em média. A operação Deepscan terminou, como todas as outras que ali se efectuaram, em águas de bacalhau. Em 2003, a BBC decidiu pôr ponto final no assunto, depois de 60 feixes de sonar terem percorrido com precisão milimétrica todo o lago, de modo que nenhum monstro se pudesse esconder sob uma pedra. A única coisa detectada foi uma bóia amarrada a muitos metros de profundidade sob a superfície. Nessie, como todos os mistérios paranormais, é um verdadeiro negócio turístico, embora o interesse tenha diminuído nos últimos anos: enquanto rendeu, em 1993, 18 milhões de libras, apenas gerou seis milhões em 2007. O monstro também reduziu o número de aparições: de dez a vinte, há uma década, para apenas três nos últimos anos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Física Quântica e Misticismo


Está provavelmente a tornar-se mais fácil perceber por que é que os dois domínios da física e do misticismo se tocam. Coisas separadas mas sempre em contacto (não-locais); electrões que vão de A para B, mas que nunca estão no meio; matéria que parece (matematicamente) ser uma função de onda distribuída, que simplesmente entra em colapso ou se torna espacialmente existente quando medida.
Os místicos parecem não ter problemas com estas ideias, a maior parte das quais precede o acelerador de partículas. Muitos dos fundadores da quântica tinham um grande interesse nos assuntos espirituais. Niels Bohr usava o símbolo yin/yang no brasão; David Bohm tinha longas discussões com o sábio indiano Krishnamurti; Erwin Schrödinger dava palestras sobre os Upanishadas.
Mas será que a física quântica prova o ponto de vista místico? Se perguntar aos físicos, eles irão ter respostas completamente divergentes. Faça esta pergunta numa festa de físicos e defenda enfaticamente um ponto de vista e poderá (afinal a quântica é probabilística) ter uma cena de pancadaria.
Para além dos materialistas convictos, o consenso parece ser que estamos na fase da analogia. Que os paralelismos são demasiado incríveis para serem ignorados. Que o raciocínio para defender uma visão paradoxal do mundo é o mesmo tanto na quântica como no Zen. Tal como já citámos o Dr. Radin: “Mas existe outra forma de pensar acerca do mundo que é sugerida; é indicada pela mecânica quântica.”
As questões acerca do que causa o colapso da função de onda, ou se os eventos quânticos são realmente aleatórios, continuam em grande parte sem resposta. Mas embora o impulso de produzir um conceito verdadeiramente unificado da realidade, que nos inclui por necessidade, e que responde aos mistérios quânticos, seja atraente, o filósofo contemporâneo Ken Wilber também insiste na precaução: sobre o misticismo. E o próprio misticismo é demasiado profundo para ser amarrado a fases de teorização científica. Que continuem a gostar uns dos outros e que o seu diálogo e troca mútua nunca acabem...
O que quero dizer portanto, ao criticar determinados aspectos do novo paradigma não é definitivamente evitar o interesse em novas tentativas. É mais uma chamada à precisão e à clareza nos presentes assun¬tos que são, afinal, extraordinariamente complexos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Quebra-cabeças


Quebra-Cabeças 1 – Espaço Vazio
Comecemos com algo familiar à maior parte das pessoas. Uma das primeiras falhas na estrutura da física newtoniana foi a descoberta de que os átomos, os supostos sólidos tijolos do universo físico, eram maioritariamente constituídos por espaço vazio. Quão vazio? Se usarmos uma bola de basquete para representar o núcleo de um átomo de hidrogénio, o electrão à sua volta estaria cerca de 30 quilómetros afastado – e o espaço entre ambos estaria vazio. Por isso, quando olhar à volta, lembre-se de que o que está aí são pontinhos pequeninos de matéria rodeados de nada.
Bem, não é bem assim. Esse suposto “vazio” não é nada vazio: contém enormes quantidades de energia subtil e poderosa. Sabemos que a energia aumenta à medida que caminhamos para níveis mais subtis de matéria (sendo a energia nuclear um milhão de vezes mais potente do que a energia química, por exemplo). Os cientistas dizem agora que há mais energia num centímetro cúbico de espaço vazio (cerca do tamanho de um berlinde) do que em toda a matéria conhecida do universo. Embora os cientistas não tenham sido capazes de medir isso directamente, já viram os efeitos deste mar de energia imensa.





Quebra-Cabeças 2 – Partícula, Onda ou Ondícula?
Não só existe “espaço” entre as partículas como, à medida que os cientistas sondam mais profundamente o átomo, descobrem que as partículas subatómicas (os constituintes dos átomos) também não são sólidas. E aparentemente têm uma aparência dual. Dependendo de como as olhamos podem comportar-se como partículas ou ondas. As partículas podem ser descritas como objectos sólidos separados com localizações espaciais específicas. As ondas, por outro lado, não são localizadas nem sólidas, mas sim dispersas, como ondas sonoras ou ondas de água.
Enquanto ondas, os electrões ou fotões (partículas de luz) não têm localização precisa, mas existem como “campos de probabilidade”. Enquanto partículas, o campo de probabilidades “colapsa” num objecto localizável num local e tempo específicos.
Espantosamente, o que parece fazer a diferença é a observação ou a medição. Os electrões não observados nem medidos comportam-se como ondas. Mal os sujeitamos a observação numa experiência, “colapsam” numa partícula e podem ser localizados.
Como pode algo ser ao mesmo tempo uma partícula sólida e uma onda suave e fluida? Talvez o paradoxo possa ser resolvido relembrando o que dissemos acima: as partículas “comportam-se” como ondas ou partículas. Mas a “onda” é apenas uma analogia. Tal como “partícula” é uma analogia do nosso mundo quotidiano. Esta noção de onda foi solidificada na teoria quântica de Erwin Schrödinger que, com a sua famosa “equação de onda”, resumiu matematicamente as probabilidades da função de onda da partícula antes da observação.
Na tentativa de o clarificar, os cientistas não sabem na realidade com que raio estão a lidar, mas o que quer que seja, nunca viram nada assim. Alguns físicos chamam a este fenómeno “ondícula”.

Quebra-Cabeças 3 – Saltos Quânticos e Probabilidade
Ao estudar o átomo, os cientistas descobriram que quando os electrões se movem de órbita em órbita em torno do núcleo, não se movem no espaço como os objectos comuns – movem-se instantaneamente. Ou seja, desaparecem de um sítio, uma órbita, e aparecem noutro. A isto se chama salto quântico.
Como se isso não quebrasse já regras suficientes do senso comum da realidade, descobriram também que não conseguiam determinar com exactidão onde iriam aparecer os electrões nem quando iriam saltar. O melhor que conseguiam fazer era formular as probabilidades (a equação de onda de Schrödinger) da nova localização do electrão. “A realidade como nós a sentimos está constantemente a ser criada de fresco a cada momento a partir desta quantidade de possibilidades”, diz o Dr. Satinover, “mas o verdadeiro mistério disto é que, dessa quantidade de possibilidades, qual é aquela que vai acontecer não é determinado por algo que faça parte do universo físico. Não há nenhum processo que faça isso acontecer”.
Ou como muitas vezes se diz: os eventos quânticos são os únicos eventos verdadeiramente aleatórios do universo.

Quebra-Cabeças 4 – O Princípio da Incerteza
Na física clássica, todos os atributos de um objecto, incluindo a sua posição e velocidade, podem ser medidos com uma precisão apenas limitada pela nossa tecnologia. Mas ao nível quântico, sempre que medimos uma propriedade, tal como a velocidade, não se consegue medir com precisão as suas propriedades, tais como a posição. Se sabemos onde algo está, não podemos saber a que velocidade vai. Se sabemos a que velocidade vai, não sabemos onde está. E por mais avançada ou subtil que seja a tecnologia é impossível penetrar nesse véu de precisão.
O Princípio da Incerteza (também referido como Indeterminância) foi formulado por Werner Heisenberg, um dos pioneiros da física quântica. Ele afirma que, por mais que se tente, não se consegue medir com precisão a velocidade e a posição simultaneamente. Quanto mais nos concentramos num, mais perdida na incerteza fica a medida do outro.

Quebra-Cabeças 5 – Não-Localização, EPR, Teorema de Bell e Entrelaçamento Quântico
Albert Einstein não gostava de física quântica (para ser simpático). Entre outras coisas, respondia à aleatoriedade acima descrita com a infame frase: “Deus não joga aos dados com o universo.” À qual Niels Bohr respondeu: “Pare de dizer a Deus o que fazer!”
Numa tentativa de derrotar a mecânica quântica em 1935, Einstein, Pedolsky e Rosen (EPR) escreveram uma experiência em pensamento que tentava demonstrar quão ridícula era. Exposto de forma inteligente, uma das implicações da quântica que não era apreciada na altura: arranja-se maneira de ter duas partículas criadas ao mesmo tempo, o que significa que estariam entrelaçadas, ou em superposição. Depois enviavam-se para lados opostos do universo. Faz-se depois algo a uma partícula para alterar o seu estado; a outra partícula muda instantaneamente para adoptar o estado correspondente. Instantaneamente!
Esta ideia era tão ridícula que Einstein se referia a ela como “acção fantasmagórica à distância”. Segundo a sua teoria da relatividade, nada podia viajar mais depressa do que a velocidade da luz. E isso era infinitamente depressa! Para além disso, a ideia de um electrão se poder manter em contacto com outro do outro lado do universo simplesmente violava qualquer senso comum da realidade.
Então, em 1964, John Bell criou uma teoria que de facto dizia, sim, a asserção EPR está correcta. E precisamente isso que acontece – a ideia de algo ser local ou existir num local está incorrecta. Tudo é não-local. As partículas estão intimamente ligadas a um nível para além do espaço e do tempo.
Ao longo dos anos desde a publicação do teorema de Bell, esta teoria foi verificada vezes sem conta em laboratório. Tente pensar nisso um momento. O tempo e o espaço, as características mais básicas do mundo em que vivemos, são de alguma forma substituídos no mundo quântico pela noção de tudo a tocar tudo ao mesmo tempo. Não é de estranhar que Einstein pensasse que isto seria a morte da mecânica quântica – não faz sentido nenhum.
No entanto este fenómeno parece ser uma lei operável no universo. De facto, Schrödinger foi citado dizendo que o entrelaçamento não era um dos aspectos interessantes da quântica; era o aspecto. Em 1975, o físico teórico Henry Stapp chamou ao teorema de Bell “a mais profunda descoberta na ciência”. Repare que ele diz ciência, não apenas física.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Teoria Quântica


“Aqueles que não ficam chocados quando entram pela primeira vez em contacto com a teoria quântica não podem de forma alguma tê-la compreendido.” – Niels Bohr, galardoado com o Prémio Nobel em 1922 pelo seu trabalho sobre a estrutura do átomo.
“O universo é muito estranho”, diz o Dr. Stuart Hameroff. “Parece haver duas séries de leis que governam o universo. No nosso mundo quotidiano clássico, basicamente as nossas escalas de tamanho e tempo, as coisas são descritas segundo as leis do movimento de Newton que foram estabelecidas há centenas e centenas de anos... Contudo, para a escala mais pequena, dos átomos, uma outra série de leis impõe-se. São as leis quânticas.”

Facto ou Ficção?
O que a teoria quântica revelou é tão intrigante que soa mais a ficção científica: as partículas podem estar em dois ou mais sítios ao mesmo tempo. (Uma experiência recente revelou que uma partícula pode estar em até 3000 sítios!) O mesmo “objecto” pode parecer ser uma partícula, localizável num local, ou uma onda, distribuída pelo espaço e pelo tempo.
Einstein disse que nada pode viajar mais depressa do que a velocidade da luz, mas a física quântica demonstrou que partículas subatómicas parecem comunicar instantaneamente sobre qualquer extensão de espaço.
A física clássica era determinística: dada qualquer série de características (tais como a posição e a velocidade de um objecto), poder-se-ia determinar com exactidão onde se dirigiria. A física quântica é probabilística: nunca podemos saber com certeza absoluta o comportamento de uma coisa específica.
A física clássica era reducionista: baseava-se na premissa de que apenas conhecendo as partes separadas se poderia compreender o todo. A nova física é mais orgânica e holística; pinta uma imagem do universo como um todo unificado, cujas partes estão interligadas e se influenciam mutuamente.
E talvez mais importante, a física quântica apagou a marcada distinção cartesiana entre sujeito e objecto, observador e observado, que dominou a ciência durante 400 anos.
Na física quântica, o observador influencia o objecto observado. Não há observadores isolados de um universo mecânico, mas tudo participa no universo.