Tema

Se analisarmos o mundo armados de mente aberta e olhar crítico e se fizermos algumas pesquisas é fácil apercebermo-nos que há muita "coisa" curiosa, difícil de explicar no actual paradigma da ciência.
Investigamos áreas díspares, desde a história antiga à física moderna, passando pela psiquiatria e filosofia.
Comecemos pela percepção. Será que vemos aquilo que esperamos ver? Como fazem os animais para prever catástrofes de modo a protegerem-se? Será que percepcionam algo para além dos nossos sentidos? Ou será que os nossos sentidos também o percepcionam mas nós não tomamos consciência por não estarmos preparados para tal? Os nossos sentidos fazem chegar ao cérebro o estrondoso número de 400 mil milhões de bits por segundo, mas apenas 2 mil chegam ao nosso consciente. O que acontece a tudo o resto? O nosso cérebro trabalha continuamente a tentar criar uma história do mundo para nós, livrando-se de imensa informação "supérflua". Esta selecção baseia-se nas nossas vivências, memórias e emoções. Sim, no fundo vemos aquilo que esperamos ver.
Religião. Fenómeno profundamente controverso. Estará a ciência em conflito com a religião? Ambas são duas abordagens à verdade, são as duas faces da mesma moeda. Se a ciência e o espírito investigam a natureza da realidade ilimitada – e obviamente quanto mais ilimitada é, mais perto da realidade – irão certamente cruzar os seus caminhos. Terá a religião de reformular todos os seus princípios de modo a acompanhar o estrondoso avanço da ciência? Sobreviverá a religião a esta reforma?
Cérebro. Pura biologia e química? É engraçado pensar o quanto o Homem investe na ciência, na tecnologia e o pouco que investe no seu próprio estudo, no estudo da mente humana. O estudo do cérebro é uma área enormemente fascinante, muito divertida de explorar. Se calhar quando compreendermos quase na plenitude o funcionamento do nosso cérebro talvez possamos aplicar esse conhecimento à construção de computadores capazes de fazerem escolhas autonomamente, dotados de sentimentos e emoções, capazes de sonhar e ter uma conversa normal, talvez um dia.
E até onde vai a Teoria Quântica? O que a teoria quântica revelou é tão intrigante que soa mais a ficção científica: as partículas podem estar em dois ou mais sítios ao mesmo tempo. O mesmo “objecto” pode ser uma partícula, localizável num local, ou uma onda, distribuída pelo espaço e pelo tempo.
Einstein disse que nada pode viajar mais depressa do que a velocidade da luz, mas a física quântica demonstrou que partículas subatómicas parecem comunicar instantaneamente sobre qualquer extensão de espaço.
Medicinas alternativas estão "na moda" e algumas já deram provas por milénios, falam-nos em "energias". Surgem histórias de paranormal mesmo vindas da comunidade científica, e muitas delas referem-se também a "energias". Pela teoria quântica apercebemo-nos que quanto mais de perto analisamos a matéria menos material se torna o mundo, no fundo passa a ser constituído por pacotes de energia e informação.
Há metafísica bastante em não pensar em nada, escreveu Caeiro. Nós estamos dispostos a pensar. Estes temas sempre nos despertaram a atenção porém nunca foram explorados no nosso percurso escolar, ou se o foram, não ficámos satisfeitos. Achamos que são importantes na nossa formação pessoal e cívica bem como da população em geral.
Não é difícil fazer grandes questões, mas quando tentamos responder a alguma surgem-nos muitas mais. Talvez encontremos um fio condutor que nos ilumine.
Temos aprendido a não confiar muito no que nos dizem, afinal aquilo que é tomado como verdadeiro muda drasticamente em questão de décadas. Também não descuro nenhuma peça do puzzle pelo simples facto de não encaixar nas que já estão montadas. Gostamos de consultar o nosso eu elevado quanto à validade das observações.

terça-feira, 17 de março de 2009

Presos ao Passado?



Com mais ligações de neurónios possíveis do que átomos há no universo, o cérebro tem um grande problema: como encontrar memória. É aí que entram as emoções, que são, em parte, uma rede de neurónios, e que estão ligadas a todas as outras redes. Estas ligações permitem ao cérebro encontrar as memórias mais importantes em primeiro lugar. As emoções avaliam a situação rapidamente, de facto, sem sequer pensar nisso, e enviam mensageiros químicos para fugir ou lutar, sorrir ou franzir o sobrolho. O lado negativo da memória associativa é que, como percepcionamos a realidade, e tratamos as novas experiências baseados nos dados mentais/neurais armazenados do passado, é difícil ver o que realmente está lá fora nesse momento. A tendência, pelo contrário, é fazer referência a experiências passadas.
Tal como todas as células do corpo se unem e inter-relacionam umas com as outras para originarem um organismo que funciona, também as redes de neurónios se inter-relacionam, ou associam, de forma a produzir essa entidade que consideramos a nossa personalidade. Todas as nossas emoções, memórias, conceitos e atitudes estão codificados neurologicamente e se interligam, resultando na personalidade. No caso de personalidades múltiplas, há conjuntos múltiplos integrados que não estão ligados uns aos outros. É por isso que quando a personalidade muda não há nenhuma memória da “outra pessoa”. O conjunto de redes a partir da qual a pessoa opera não está ligado a essas memórias.
Neuroplasticidade é o termo usado para definir a capacidade que o cérebro tem de formar novas ligações – por outras palavras, neurónios ligarem-se a outros neurónios. Embora em tempos se acreditasse que por altura da adolescência o cérebro já estivesse ligado para o resto da vida, as investigações mais recentes confirmaram que o cérebro não só é muito plástico e maleável, mesmo em idades avançadas, como também cria novas células. Tal como explica o Dr. Daniel Monti:
“A boa notícia é que há um enorme potencial para mudar os tipos de comportamento e padrões característicos em que caímos. E o potencial para a mudança do nosso sistema nervoso, de toda a nossa psicologia, é tremendo.
De facto, se tiver ouvido e se lembrar de tudo o que eu disse, a sua fisiologia é diferente do que era antes! Essa memória foi codificada e a sua estrutura genética mudou. E enquanto antes falaríamos do sistema nervoso como uma coisa rígida com pouca capacidade de mudança, sabemos agora que, a muitos níveis, isso não é verdade. Há uma capacidade tremenda de plasticidade, que basicamente significa capacidade de mudança, no sistema nervoso.”
A investigação citada pelo Dr. Monti encaixa perfeitamente no Human Potencial Movement, que sempre disse que somos muito mais ilimitados do que achamos.
O factor principal que distingue os seres humanos de todas as outras espécies é o nosso lóbulo frontal e o rácio desse lóbulo frontal em relação ao resto do cérebro. O lóbulo frontal é a área do cérebro que nos permite concentrar a atenção e concentrarmo-nos. É fulcral para tomar decisões e para manter uma intenção firme. Permite-nos tirar informações do nosso meio ambiente e do nosso armazém de memórias, processá-las e tomar decisões ou escolhas diferentes das decisões e escolhas que já fizemos.

Se os teus olhos estiverem sãos, todo o teu corpo andará iluminado.
— Mateus 6, 22

A segunda das quatro Nobres Verdades de Buda é:
“A origem do sofrimento é a ligação às coisas passageiras e a ignorância daí proveniente. As coisas passageiras não incluem apenas os objectos físicos que nos rodeiam, mas também ideias, num sentido mais lato, tudo objectos da percepção. A ignorância é a falta de compreensão de como a nossa mente está ligada a coisas impermanentes. As razões para o sofrimento são desejo, paixão, ardor, procura de riqueza e prestígio, busca por fama e popularidade, ou resumindo: anseio e dependência.”

Parece lógico que o dispositivo físico mais maleável, complexo e sofisticado seja a interface entre o mundo espiritual “intangível” e o mundo material “tangível”. E que isso reflicta processos em ambos os mundos.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Medindo a Inteligência


Há algumas pessoas que vêem as coisas de maneira diferente. Quando a maioria decide seguir um caminho, elas decidem escolher outro. Porquê? Talvez porque elas sejam inteligentes e criativas e nós sejamos desajeitados. Mas... quem é inteligente? E porque é que está tão na moda medir a inteligência? E porque é que a estamos a medir com métodos totalmente distintos dos que eram utilizados há apenas alguns anos?
A criatividade, segundo os especialistas, parece estar relacionada com uma atitude que se tem perante a vida: é o impulso de criar e de gerar ideias. E uma pessoa criativa é um indivíduo que consciente ou inconscientemente escolhe o caminho de criar.

Temos investido muito tempo e dinheiro para medir a inteligência das pessoas. Os famosos testes de Q.I., com os quais se avaliavam os quocientes intelectuais, foram utilizados e inclusivamente manipulados de mil maneiras. Robert Sternberg realizou experiências de medição intelectual em crianças cujas idades estavam compreendidas entre os 8 e os 9 anos e entre a 14 e os 18 anos. Segundo revelaram esses estudos, os resultados são muito melhores quando se usa a inteligência criativa do que quando se aplica o conceito básico que passa pelo estudo do pensamento lógico. “Quando medimos a inteligência, pensamos que é muito importante não medir apenas a inteligência tradicional, a inteligência académica. O quociente intelectual tem alguma importância na escola, mas é menos importante na vida e no trabalho. Portanto, nós medimos a inteligência analítica ou académica, mas também a inteligência criativa e a inteligência prática: o senso comum.” As suas investigações demonstraram que basicamente não há relação entre a inteligência académica e a inteligência prática. Pode-se ter muitíssimo senso comum, mas índices muito baixos nos testes convencionais da inteligência. Inclusive, pode-se ter um quociente intelectual extremamente alto, mas uma ausência assombrosa de senso comum.
Robert Sternberg fala também de “inteligência tácita”: é a capacidade para se adaptar a um meio sobre o qual não se sabe nada e do qual nem sequer se tinha ouvido falar. E acontece que pessoas com um quociente intelectual muito elevado - um quociente académico muito elevado - não têm esta “inteligência tácita” para se adaptar a um meio desconhecido. “O mais importante na vida, creio eu, não é ter experiências, mas sim aprender com as experiências”, dizia-nos o professor Sternberg. Toda gente tem experiências, mas as investigações demonstram que as pessoas que adquirem o conhecimento tácito, o conhecimen¬to de como lidar com as suas vidas, como ganhar mais dinheiro, como ser mais apreciado, como fazer o trabalho melhor, são pessoas que aproveitam as suas experiências. De novo: não se trata de ter a experiência, mas sim de aprender com ela. “Aquilo que digo aos meus estudantes é que não me incomoda que cometam um erro ou um equívoco: toda a gente se equivoca, e isso é bom, porque se aprende com os erros. O que me incomoda é que se repita o mesmo erro muitas vezes.”
O professor Sternberg considera que a criatividade pode ser ensinada. Na sua opinião, a criatividade é uma atitude perante a vida: é a atitude de criar, de gerar ideias, e a pessoa criativa é uma pessoa que assume riscos... O indivíduo criativo não pensa que precisa de ter a certeza em todos os momentos. Reconhece a necessidade de enfrentar os obstáculos. Em conclusão: “Se uma pessoa é criativa, a pergunta não é se vai haver obstáculos, porque de certeza os haverá. A pergunta que uma pessoa criativa precisa de fazer a si mesmo é: "Tenho a coragem para enfrentar e superar os obstáculos?"“
A mentalidade tradicional não apresenta o indivíduo criativo como um ser que “controla” a sua criatividade. Não raro, é apresentado como uma caricatura, um indivíduo a quem se acende uma lâmpada... sem nenhum controlo aparente! E, curiosamente, falamos também de “iluminação”, de “ver a luz”... E o século XVIII, o século da razão e do Iluminismo, é também o Século das Luzes. Será que existe uma base fisiológica na criatividade? Haverá uma parte do cérebro que se “ilumina” ou que se activa quando uma pessoa tem uma ideia criativa?
As investigações mostram que há muitas partes do cérebro envolvidas no processo criativo e que a acção está distribuída por diferentes áreas. “Mas o importante é perceber que a biologia não afecta apenas o comportamento e a aprendizagem, afecta o cérebro, afecta a biologia: vai em ambas as direcções.” Ou seja, quando se aprende algo, quando um indivíduo se desenvolve cognitivamente, o seu cérebro também muda. Em suma, a biologia não significa predestinação: pode-se mudar a vida e o cérebro através da aprendizagem e das atitudes perante a vida.
A criatividade é entendida como operações fisiológicas. Descansando debaixo de uma árvore, Newton deu com a explicação para a força da gravidade quando viu cair uma maçã à sua frente. Uma bela poesia, uma frase gloriosa ou uma magnífica melodia surgem frequentemente em momentos de descontracção, depois de sestas ou de estados de sonolência. Porquê? O nosso cérebro está povoado de células nervosas ou neurónios, unidades básicas da estrutura cerebral. Estas células têm uma configuração muito particular que permite a transmissão dos impulsos nervosos; os neurónios agrupam-se nos chamados “nodos” e desenvolvem uma actividade específica; assim se estabelece uma imensa rede de circuitos eléctricos. No cérebro existem sistemas de activação geral que regulam o grau de activação eléctrica dos neurónios e nodos; assim, por exemplo, uns quantos nodos, activados intensamente, caracterizam o estado de concentração, ao passo que uma grande quantidade de nodos activados mas com uma baixa intensidade descreveriam os momentos de atenção difusa. Estas operações facilitam e amplificam a capacidade de associação e dão origem à inspiração.
Sem dúvida, nas pessoas consideradas criativas existem aptidões mais desenvolvidas, mas a concepção da ideia criativa nasce normalmente de uma ampla base de conhecimentos que “empapa” os nodos e os circuitos cerebrais.
Embora as capacidades relacionadas com a intuição, a imaginação e a flexibilidade se atribuam ao hemisfério direito do cérebro, pensa-se que ambos os hemisférios estão constantemente a interagir e que não há zonas específicas onde a criatividade possa ser situada. No entanto, alguns estudos realizados com pessoas ligadas a actividades musicais sugeriram que as aptidões musicais, tais como o ouvido absoluto ou a capacidade para reconhecer diferentes notas musicais, implicam uma zona do córtex na área de Wernicke, que parece ser mais ampla no hemisfério esquerdo, sobretudo no caso dos músicos profissionais. Esta área de Wernicke está relacionada com a compreensão da linguagem, o que sugere que a percepção da linguagem e a percepção dos tons musicais são actividades muito próximas.
Alguns casos concretos tornam mais confusa a nossa análise do cérebro criativo. Por exemplo, o compositor Maurice Ravel sofreu uma lesão irreversível no hemisfério esquerdo, provavelmente na área de Wernicke, que o incapacitava quando tinha de compor e de ler música, mas conseguia compreender e criticar perfeitamente as peças que escutava. Viveu quatro longos anos com o tormento de desfrutar da música sem a poder expressar.

terça-feira, 10 de março de 2009

O Poder Mental e o Autismo


Por Rita Carter, autora de “Mapping the Mind”:

Também você pode, ao que parece, atingir capacidades cerebrais sobre-humanas. Bastará, para tal, desligar uma parte do cérebro. Soa estranho?

O Jaime consegue, em qualquer altura do dia, dizer as horas, com uma precisão de minutos, sem olhar para o relógio. A Luísa consegue medir qualquer objecto com uma acuidade de milímetros lançando um simples olhar sobre o objecto. Já o Duarte fala fluentemente 24 línguas, onde se incluem duas que ele próprio inventou. Extraordinário? Sem dúvida… Mas esquisito? Não, nem por isso. De acordo com uma recente e controversa teoria, você e eu poderíamos fazer o mesmo se, porventura, fossemos capazes de interromper a nossa usual esperteza por alguns momentos.
O Jaime, a Luísa e o Duarte são o que se designa por sábios autistas, pessoas que, embora podendo ter dez em certos testes de inteligência, ou apresentar graves dificuldades de comunicação e interacção com os outros, desenvolvem competências sobre-humanas em áreas específicas, como a música, a arte ou a matemática.
Cerca de um em cada dez autistas tem um qualquer talento realmente invulgar, mas os casos mais prodigiosos até agora registados, desde que esta situação foi detectada, são cerca de cem. Muitos deles são figuras públicas, dado que todos nós nos sentimos fascinados com os seus talentos notáveis.
Ainda não existe uma conclusão incontroversa sobre a causa e processos subjacentes a estes fenómenos. De entre as várias hipóteses até agora aventadas destaca-se uma, recente, que afirma que as competências destes sábios não são exclusivas e únicas, mas antes capacidades latentes em todas as pessoas. Estas capacidades latentes podem, até, ser estimuladas e reveladas através de algumas técnicas já existentes e relativamente simples.
Os psicólogos que exploram esta teoria pensam que estas capacidades resultam de processos cerebrais que ocorrem connosco, em qualquer altura, mas que rapidamente são relegados para um segundo plano de inacção por outros processos cognitivos mais sofisticados de conhecimento conceptual. É este plano mais elevado de conhecimento que normalmente vai preencher a nossa consciência… Quanto às capacidades demonstradas por aqueles sábios, que tratam de forma rudimentar, embora eventualmente mais detalhada e intensa, a informação que subjaz a esse plano conceptual mais elevado, elas são automaticamente remetidas para o inconsciente.
Para os investigadores que desenvolvem essa teoria, a maioria das pessoas avança do processo de tratamento detalhado de todos os factos para a elaboração de sínteses ou conceitos significantes. Quando o cérebro efectua essa transição, já não há forma de voltar atrás e recuperar novamente os processos anteriores. A excepção é a de esses sábios que, devido ao seu autismo, continuam a ter acesso a tais processos pré-conscientes.
Estudando os casos mais frequentes de sobredotados para a matemática, e baseando-se em imagens cerebrais que revelam a actividade inconsciente que ocorre no cérebro antes de um qualquer dado se transformar numa percepção consciente, num pensamento ou numa emoção, estes investigadores concluíram que, por exemplo, uma imagem visual que cai sobre a retina leva cerca de um quarto de segundo a atingir a mente como uma percepção consciente. Antes de chegar a esse ponto de se constituir como uma percepção, essa imagem é desmembrada. Cada um dos seus elementos – cor, forma, movimento, localização – é então identificado separadamente nas áreas especializadas do cérebro para tal fim. De seguida, esses elementos são combinados novamente num padrão que é enviado para a zona cerebral que lhe atribui significado e o reconhece como uma percepção consciente. Normalmente, nenhum de nós tem consciência de todo este processo, e só tomamos conhecimento dessa imagem quando todo o processo detalhado de identificar os seus elementos já foi concluído e a percepção está completamente constituída.
Tal situação é perfeitamente compreensível se tivermos em conta que é esta percepção significante que nos permite decidir e agir correctamente perante as imagens que vamos percepcionando. Se vemos uma cara amiga, sorrimos, se vemos uma cara desagradável, afastamo-nos… Portanto, os cérebros das pessoas normais absorvem todos os pequenos detalhes, processam-nos e extraem um único conceito útil, que se torna consciente pela percepção. Ora, segundo estes investigadores, os sábios autistas não efectuam esta selecção ou síntese e, portanto, eles percepcionam a imagem em todos os seus extraordinariamente detalhados componentes.
Se esta teoria, de Snyder e Mitchell, estiver correcta, será então possível às pessoas normais aprenderem a voltar atrás um passo, para assim tomarem consciência, não apenas de uma versão sintética e útil da impressão complexa original, mas sim de todos os componentes dessa mesma impressão original, tal como o conseguem fazer estes sábios autistas?
Quem responde afirmativamente a esta pergunta é Niels Birbaumer, da Universidade de Tilbingen, na Alemanha, que escreveu no New Scientist que seria possível aceder a processos cognitivos pré-conscientes, facto que já ocorre com algumas pessoas não autistas que, mesmo sem o saberem, conseguiram manter o acesso consciente a esses processos. Birbaumer investigou o caso de um estudante com invulgares capacidades de cálculo e verificou, pelo registo da sua actividade cerebral enquanto efectuava os cálculos, que ele era capaz de evitar, enquanto calculava, a actividade da zona cortical, que está associada ao pensamento conceptual e às sínteses perceptivas que se tornam conscientes. Deste modo, o seu cálculo era feito a um nível cerebral mais baixo, que percepciona detalhadamente os dados elementares.
Esta teoria ainda encontra muitos cépticos que não consideram possível que o processo mental dos sábios esteja presente, embora escondido, em todas as pessoas. A teoria mais comum, pelo contrário, afirma que os dotes extraordinários destes sábios resultam de uma capacidade isolada e altamente desenvolvida que, muito provavelmente, é fruto da actividade de uma área do cérebro também ela excepcionalmente desenvolvida. Nas pessoas normais, que desenvolvem rapidamente a sua actividade cerebral no sentido do chamado “processamento global” – extrair um significado sintético de vários elementos ou impressões – essas áreas e respectivas capacidades não são desenvolvidas e os detalhes concretos de cada percepção são descartados sistematicamente.
Esta ideia de que áreas do cérebro mais desenvolvidas criam capacidades excepcionais para a arte, ou a matemática, ou a música, ganhou alguns adeptos quando se constatou que o cérebro de Einstein, que está cuidadosamente preservado (New Scientist, 26/6/99) apresentava uma área, normalmente associada ao cálculo matemático, excepcionalmente desenvolvida e sem o seccionamento provocado pelos sulcos que, frequentemente, estabelecem os limites dessas áreas funcionais. Perante esta constatação torna-se tentador jogar com a possibilidade de que essa área do cérebro de Einstein, ligada à matemática, tivesse “anexado” neurónios de áreas circundantes, que normalmente estariam dedicados a outras funções, para assim fortalecer a capacidade de cálculo e raciocínio matemáticos.
Mas esta teoria enfrenta uma contrariedade… É que todas as áreas do cérebro sujeitas a actividade intensa tendem a desenvolver-se, pelo que se torna muito difícil decidir se uma área mais desenvolvida é a causa de actividade excepcional, ou o seu efeito.
No entanto, não parece impossível que todas as crianças comecem por perceber o mundo de forma semelhante aos sábios. Umas das incríveis capacidades que as crianças demonstram, logo aos dezoito meses de idade, é a aprendizagem da fala (New Scientist, 21 Agosto, p.36), que não é feita conscientemente. Elas simplesmente aprendem a “saber” quando uma palavra termina e outra começa, tal como outras crianças simplesmente “sabem” a raiz quadrada de um número com seis dígitos. Já os adultos, ao aprenderem uma nova língua, têm de fazer um grande esforço de aprendizagem, não lhes é suficiente imergirem na fala e, tal como as crianças fazem, simplesmente aprender com essa prática. À medida que as crianças crescem, é bem possível que se percam essas capacidades típicas dos sábios, na medida em que se altera o processamento detalhado das impressões elementares para uma percepção mais conceptualizada, cada vez mais sintética e adaptada às necessidades da acção.
As imagens cerebrais de crianças recém-nascidas mostram que a sua actividade mental se reduz à utilização de zonas das quais, em adultos, não temos consciência, mas que registam informação do exterior e reagem a ela provocando desejos, emoções e comportamentos automáticos. No entanto, ao fim de alguns meses a criança já começa a utilizar algumas áreas do córtex que estão associadas ao pensamento consciente e ás percepções. Com o passar do tempo, cada vez mais informação é processada a nível cortical.
Nas crianças autistas, porém, este processo de passagem das áreas inconscientes para o córtex parece ser retardado ou impedido, deixando assim intacto ou activo o processo elementar pré-cortical. Há também registo de casos excepcionais de pessoas que desenvolveram capacidades de sábio de forma surpreendente… Um rapaz de 9 anos passou de estudante vulgar para um génio da mecânica após uma bala lhe ter destruído uma parte do cérebro... O facto de o autismo e as capacidades excepcionais de sábios serem seis vezes mais frequentes em rapazes que em raparigas poderá dever-se à Testosterona, uma vez que esta inibe o desenvolvimento do hemisfério cerebral esquerdo, inibição que é, durante certos períodos do desenvolvimento fetal masculino, uma ocorrência normal, mas que pode alargar-se excessivamente, provocando então um subdesenvolvimento do hemisfério esquerdo e um hiper desenvolvimento do hemisfério direito, factores associados ao autismo e às capacidades de sábios...
Esta teoria também parece ser corroborada pelos casos em que, seja por acidente, como acima se referiu com o caso daquele rapaz de 9 anos, seja por casos de demência, se verificou o surgimento de capacidades de sábios em pessoas que sofreram destruição parcial do hemisfério cerebral esquerdo, destruição essa que terá anulado a inibição que impedia a utilização dessas capacidades. Bruce Miller, da Escola de Medicina de Los Angeles, Universidade da Califórnia, relatou recentemente na revista Neurology, nr 51, p. 978, que cinco pacientes seus desenvolveram extraordinárias capacidade de desenho após terem sofrido lesões no hemisfério esquerdo provocadas pela demência.
Entretanto, Snyder pensa que poderá testar a sua teoria utilizando eléctrodos para acordar o inibido e inconsciente sábio que, segundo ele, todos ocultamos no nosso cérebro. Bastará, através de impulsos magnéticos, conseguir interferir com a actividade normal do cérebro, de forma a “desligar” temporariamente a área cortical da conceptualização. Se a teoria estiver correcta e o processo dos impulsos for eficaz na inibição da área cortical então deverá assistir-se ao irromper na consciência dos processos pré-conscientes dos sábios e… da nossa infância!

terça-feira, 3 de março de 2009

Cérebro Fantástico

O ser humano é constituído por um conjunto de órgãos, organizados em sistemas, com determinadas finalidades que se relacionam entre si e com o meio: sistema respiratório, circulatório, nervoso, endócrino, entre outros.
É engraçado pensar o quanto o Homem investe na ciência, na tecnologia e o pouco que investe no seu próprio estudo, no estudo da mente humana. O estudo do cérebro é uma área enormemente fascinante, muito divertida de explorar. Embora esteja ainda numa fase em que muito falta estudar existem muitas coisas que sabemos. Sabemos que é a estrutura mais complexa do planeta, do nosso universo conhecido. O cérebro comanda e regula todas as actividades do nosso corpo, desde o batimento cardíaco, temperatura, digestão e função sexual até à aprendizagem, memória e emoções.
O cérebro humano é tão complexo que se torna absolutamente difícil compreender a sua fisiologia. Calcula-se que haja mais conexões possíveis num cérebro humano do que átomos no universo inteiro. Mesmo num cérebro pequeno, o trabalho é incrível. Estima-se que para resolver o problema de um pássaro a aterrar num ramo ao vento, o maior supercomputador levaria dias a calcular uma solução, se conseguisse. Este problema poderia ser computacionalmente insolúvel. Mas os cérebros dos pássaros fazem-no a toda a hora, e sem hesitações.
De entre os sistemas constituintes do nosso corpo, destaca-se o sistema nervoso onde o cérebro detém um papel central. É através do sistema nervoso que o organismo estabelece comunicação com o meio exterior, recebendo informação, interpretando-a e reagindo a alterações do meio.
Como todos os outros sistemas, o sistema nervoso é constituído por uma infinidade de pequenas células nervosas a que damos o nome de neurónios.
O cérebro é feito de cerca de 100 mil milhões de neurónios. Para além dos neurónios fazem também parte da constituição do sistema nervoso as células gliais. As células gliais facultam os nutrientes, como o oxigénio e a glicose, que alimentam, isolam e protegem os neurónios. É este tipo de células que controla o desenvolvimento dos neurónios ao longo da vida, determinam quais os neurónios que estão aptos a funcionar correctamente e asseguram a manutenção do ambiente químico que rodeia os neurónios.
Cada neurónio tem entre 1000 a 10 mil sinapses, ou locais onde se ligam a outros neurónios. Estes neurónios usam as ligações para formar redes entre si. Estas células nervosas integradas ou ligadas formam aquilo a que chamamos redes de neurónios. Uma forma simples de ver isto é que cada rede representa um pensamento, uma memória, uma habilidade, uma informação, etc.
Contudo, estas redes não estão sós. Estão todas interligadas, e é essa interligação que forma ideias complexas, memórias e emoções. Por exemplo, a rede para “maçã” não é uma rede simples de neurónios. E uma rede muito maior que se liga a outras redes, tais como as de “vermelho”, “fruto”, “redondo”, “gostoso”, etc. Esta rede está por sua vez ligada a várias outras, de forma a que, quando vemos uma maçã, o córtex visual, que também está ligado, dispara essa rede de forma a dar-lhe a imagem da maçã.
O cérebro humano apresenta características estruturais muito próprias que o distinguem do cérebro dos outros animais. O cérebro é um sistema unitário, que trabalha como um todo, de forma interactiva, caracterizando-se pela sua plasticidade. Esta plasticidade, esta flexibilidade, permite uma adaptação ao meio mais eficaz e mais criativa, permitindo o desenvolvimento de um conjunto de capacidades que os distinguem dos outros animais. A formação do cérebro não resulta de um programa preestabelecido: o meio tem um papel decisivo no desenvolvimento cerebral, antes e após o nascimento. A diferente expressão genética não chega para explicar as diferenças individuais: os efeitos do meio intra-uterino e as experiências ao longo da vida são elementos fundamentais para explicar o processo da individuação.
O cérebro aprende de duas formas principais. A primeira é através de dados factuais, intelectuais que compreendemos e/ou memorizamos. Por exemplo, quando estudamos história decoramos nomes e datas, ou quando lemos Platão tiramos conclusões acerca do seu conceito de governo ideal. Cada nome e data, cada argumento lógico, adiciona redes de neurónios ao cérebro. Quanto mais revirmos a matéria mais firmemente fica estabelecido na memória – porque as redes de neurónios ficam mais fortes.
A segunda forma, e normalmente mais poderosa, que o cérebro tem de aprender é através da experiência.
Independentemente do tipo de método, a aprendizagem consiste essencialmente na integração de neurónios para formar novas redes. Aprender verdadeiramente é construir novas estruturas baseadas em estruturas anteriores.