Tema

Se analisarmos o mundo armados de mente aberta e olhar crítico e se fizermos algumas pesquisas é fácil apercebermo-nos que há muita "coisa" curiosa, difícil de explicar no actual paradigma da ciência.
Investigamos áreas díspares, desde a história antiga à física moderna, passando pela psiquiatria e filosofia.
Comecemos pela percepção. Será que vemos aquilo que esperamos ver? Como fazem os animais para prever catástrofes de modo a protegerem-se? Será que percepcionam algo para além dos nossos sentidos? Ou será que os nossos sentidos também o percepcionam mas nós não tomamos consciência por não estarmos preparados para tal? Os nossos sentidos fazem chegar ao cérebro o estrondoso número de 400 mil milhões de bits por segundo, mas apenas 2 mil chegam ao nosso consciente. O que acontece a tudo o resto? O nosso cérebro trabalha continuamente a tentar criar uma história do mundo para nós, livrando-se de imensa informação "supérflua". Esta selecção baseia-se nas nossas vivências, memórias e emoções. Sim, no fundo vemos aquilo que esperamos ver.
Religião. Fenómeno profundamente controverso. Estará a ciência em conflito com a religião? Ambas são duas abordagens à verdade, são as duas faces da mesma moeda. Se a ciência e o espírito investigam a natureza da realidade ilimitada – e obviamente quanto mais ilimitada é, mais perto da realidade – irão certamente cruzar os seus caminhos. Terá a religião de reformular todos os seus princípios de modo a acompanhar o estrondoso avanço da ciência? Sobreviverá a religião a esta reforma?
Cérebro. Pura biologia e química? É engraçado pensar o quanto o Homem investe na ciência, na tecnologia e o pouco que investe no seu próprio estudo, no estudo da mente humana. O estudo do cérebro é uma área enormemente fascinante, muito divertida de explorar. Se calhar quando compreendermos quase na plenitude o funcionamento do nosso cérebro talvez possamos aplicar esse conhecimento à construção de computadores capazes de fazerem escolhas autonomamente, dotados de sentimentos e emoções, capazes de sonhar e ter uma conversa normal, talvez um dia.
E até onde vai a Teoria Quântica? O que a teoria quântica revelou é tão intrigante que soa mais a ficção científica: as partículas podem estar em dois ou mais sítios ao mesmo tempo. O mesmo “objecto” pode ser uma partícula, localizável num local, ou uma onda, distribuída pelo espaço e pelo tempo.
Einstein disse que nada pode viajar mais depressa do que a velocidade da luz, mas a física quântica demonstrou que partículas subatómicas parecem comunicar instantaneamente sobre qualquer extensão de espaço.
Medicinas alternativas estão "na moda" e algumas já deram provas por milénios, falam-nos em "energias". Surgem histórias de paranormal mesmo vindas da comunidade científica, e muitas delas referem-se também a "energias". Pela teoria quântica apercebemo-nos que quanto mais de perto analisamos a matéria menos material se torna o mundo, no fundo passa a ser constituído por pacotes de energia e informação.
Há metafísica bastante em não pensar em nada, escreveu Caeiro. Nós estamos dispostos a pensar. Estes temas sempre nos despertaram a atenção porém nunca foram explorados no nosso percurso escolar, ou se o foram, não ficámos satisfeitos. Achamos que são importantes na nossa formação pessoal e cívica bem como da população em geral.
Não é difícil fazer grandes questões, mas quando tentamos responder a alguma surgem-nos muitas mais. Talvez encontremos um fio condutor que nos ilumine.
Temos aprendido a não confiar muito no que nos dizem, afinal aquilo que é tomado como verdadeiro muda drasticamente em questão de décadas. Também não descuro nenhuma peça do puzzle pelo simples facto de não encaixar nas que já estão montadas. Gostamos de consultar o nosso eu elevado quanto à validade das observações.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Origem da Consciência


Será a consciência meramente um produto do cérebro, um “epifenómeno” ou uma “propriedade emergente” da actividade bio-eléctrica das nossas cabeças? Será algo que surge quando neurónios suficientes disparam ao mesmo tempo, produzindo um nível suficiente de complexidade computacional? Se sim, será o cérebro apenas um computador biológico? Quão diferentes somos das máquinas? Poderia existir inteligência artificial que igualasse ou ultrapassasse a inteligência humana? Seriam tais máquinas “conscientes”? Poderiam aprender? Teriam livre arbítrio?
Ou será a consciência uma componente fundamental do universo, independente do cérebro, que pode ser sentida fora do corpo, tal como está documentado nas milhares de experiências fora-do-corpo e de quase-morte? Nesses casos, o corpo de uma pessoa pára e deixa de funcionar temporariamente (na mesa de operações, por exemplo) e no entanto a sua consciência continua a manter a experiência acordada.

Historicamente, as respostas a esta questão são de três tipos:
• Materialismo: a matéria está em primeiro lugar; a consciência, o que quer que seja, é secundária. A consciência é apenas um efeito da actividade do cérebro. Não existe a “consciência” propriamente dita; não tem uma realidade própria, é meramente um produto da nossa biologia, das redes de neurónios e das interacções electroquímicas.
• Dualismo: a consciência e a matéria são duas realidades que existem. Contudo, são tão diferentes (uma sólida e tangível e outra abstracta e intangível) que operam em reinos completamente distintos e não relacionados. Descartes, na década de 1600, dividiu o mundo em res cogitans e res extensa – o reino do espírito e do pensamento (cogitans) e o reino da matéria e das coisas (res extensa). O mundo material, incluindo minerais, plantas, animais e seres humanos, é feito de máquinas, governadas pelas leis absolutas da causalidade. Não pode haver acção recíproca entre o reino abstracto do pensamento puro que vagueia livremente e o reino denso e localizado da matéria: são duas substâncias completamente diferentes.
• Idealismo: a consciência é uma realidade fundamental. Tudo é uma expressão da consciência. Viva, fluida e perpetuamente auto-renovável, auto-exprime-se num continuam de níveis ou camadas, desde a mais “suave” consciência abstracta pura, ao longo de todos os níveis mais “substanciais” (funções de onda quânticas e partículas, fotões, átomos, moléculas, células, etc), à mais sólida matéria. Neste continuum, tudo está ligado e relacionado; é tudo a mesma coisa, manifestando diferentes frequências, níveis vibratórios ou densidades. Não é a mente sobre a matéria; é mente igual a matéria. Não é a consciência que cria realidade, mas sim consciência igual a realidade.
Esta estrutura, embora considerada “extrema” por muitos, não só é consistente com o budismo, a tradição indiana védica e a mística do cristianismo, judaísmo e islão, como é aprovada por vários físicos.

Mas quais são os mecanismos pelos quais a consciência perde a sua abstracção pura e se torna pensamento, percepção e sentimento, e surge como actividade eléctrica ou química no cérebro? Eis algumas tentativas teoréticas de explicar como funciona.

Teoria “RO” da Consciência de Penrose-Hameroff

“Como é que a matéria viva produz emoções, sentimentos e pensamentos subjectivos?” pergunta Hameroff, professor emérito dos departamentos de Anestesiologia e Psicologia e director do Centro de Estudos da Consciência da Universidade do Arizona. Entrou em contacto com o trabalho de Sir Rogers Penrose, matemático e físico inglês de renome.
Penrose propôs que a consciência surge quando superposições de neurónios no cérebro atingem um ponto crítico e entram em colapso espontaneamente. Estas “RO” convertem possibilidades múltiplas ao nível pré-consciente, inconsciente ou subconsciente de forma a definir percepções ou escolhas ao nível consciente, tal como escolher piza, sushi ou comida tailandesa (tudo em superposição) e depois escolher uma (colapso ou redução). Hameroff sugeriu o mecanismo pelo qual isto teria lugar, e juntamente com Penrose, formularam a sua teoria.
Essencial à forma como se passa este colapso, ou RO, são os pequenos microtúbulos, estruturas ocas tipo palhinhas dentro de cada célula, incluindo os neurónios. Em tempos considerados apenas um cito-esqueleto ou estruturas de apoio das células, descobriu-se que os microtúbulos revelam uma capacidade de auto-organização e inteligência extraordinárias. Servem de sistema nervoso e circulatório da célula, transportam materiais e organizam a forma e movimento da célula. Interagem com os seus “vizinhos” no processamento e comunicação de informação e podem organizar as células vizinhas num todo coerente e unificado. No caso dos neurónios, os microtúbulos estabelecem e regulam as ligações sinápticas e estão envolvidos na libertação de neurotransmissores. Tal como diz o Dr. Hameroff, “Comecei a olhar para estes microtúbulos e para como poderiam processar informação, e a sua estrutura parecia sugerir que eram uma espécie de computador, uma espécie de aparelho computacional. Uma vez que as paredes dos microtúbulos são treliças hexagonais muito interessantes com simetrias matemáticas muito bonitas, pareciam adequados às operações computacionais. Estão em todo o lado, e parecem organizar quase tudo”.
As alterações estruturais, processamento de informação e comunicação entre os microtúbulos, nos neurónios do cérebro, influenciam directamente, “um nível acima”, a organização dos neurónios nas redes chamadas “redes neuronais”. Mas os microtúbulos propriamente ditos são afectados a partir da sua própria estrutura por um fenómeno quântico: as proteínas de que são feitos respondem a sinais de um computador quântico interno que consiste em electrões únicos. O Dr. Hameroff explica: “Estas forças mecânicas quânticas nas bolsas dentro das proteínas controlam a configuração da forma da proteína. E isso, por sua vez, controla as acções dos neurónios, dos músculos e do nosso comportamento. Então, a alteração da forma das proteínas é o ponto de amplificação entre o mundo quântico e a nossa influência no mundo clássico através de tudo o que a humanidade faz, bom ou mau.”
Hameroff diz ainda que é o colapso espontâneo (RO) destes microtúbulos, mais ou menos quarenta vezes por segundo, que proporciona “um momento de consciência”. A nossa consciência não é contínua. Ele diz: “A consciência é uma espécie de roda dentada através do tempo e do espaço, e essa consciência é uma sequência de momentos agora: agora, agora, agora...”
A escala de Planck ainda não foi introduzida, mas é um aspecto importante da teoria Penrose-Hameroff. A escala de Planck (segundo o físico quântico Max Planck) é a menor distância que pode ser definida. Em 10-33 cm, é 10 triliões de triliões de vezes mais pequeno do que um átomo de hidrogénio. Segundo Hameroff, este nível fundamental do universo é um vasto armazém de valores éticos, estéticos e de verdade, e precursor da experiência consciente, pronto a influenciar cada uma das nossas percepções e escolhas conscientes. Estamos ligados ao universo, e entrelaçados com todas as outras pessoas através desta omni-presença omnisciente, um mar de sentimentos e subjectividade. Se formos atentos e não agirmos por reflexo ou impulso, as nossas escolhas podem ser divinamente guiadas. Penrose evita qualquer implicação espiritual destas ideias, mas isso é inevitável. A computação quântica do nosso cérebro liga a nossa consciência ao universo “funda-mental”.

Não existe lugar para a verdadeira aleatoriedade na dinâmica determinística clássica, e sem alguma fonte de aleatoriedade não há opções... A única fonte conhecida de perfeita liberdade de acção reside na natureza quântica da matéria.

— Jeffrey Satinover, M.D.

Satinover, físico embrenhado na mecânica quântica, escreveu um livro chamado O Cérebro Quântico: A Busca pela Liberdade e a Próxima Geração do Homem. Apresentou um argumento matemático rigoroso que demonstra que “a actividade do sistema nervoso e a forma específica como ele implementa os efeitos quânticos abre absolutamente a porta para o livre arbítrio ser uma possibilidade que não viola os dogmas científicos modernos”. A ideia de Satinover está directamente relacionada com a estrutura por camadas descrita acima. É esse não-determinismo do nível quântico da existência, a aleatoriedade e o facto de a probabilidade, mais do que a certeza absoluta, comandar a realidade quântica, que nos dá a possibilidade de ter livre arbítrio.
A um nível macroscópico, ao nível da grande escala da física clássica, todos os eventos, desde a órbita dos planetas aos movimentos das moléculas, são mecânicos e determinados por leis matemáticas precisas. Assim, apenas se a aleatoriedade do nível quântico puder de alguma forma ser relevante ao nível macroscópico é que a escolha e o livre arbítrio podem ser possíveis.
“Ao nível do cérebro”, diz Satínover, as redes neurais “produzem uma inteligência global associada ao cérebro como um todo. Mas quando olhamos para cada neurónio individualmente, o seu interior é uma implantação física diferente do mesmo princípio. E, de facto, por mais que se baixe a escala, tal como as caixas chinesas dentro umas das outras, pode ser demonstrado que cada elemento individual de processamento em dada escala é composto por inúmeros elementos de processamento mais pequenos.”
Começando na escala “mais baixa”, mais pequena, o processo pelo qual as proteínas se cruzam – o processo que Stuart Hameroff descreveu a actuar dentro do microtúbulo – “obedece essencialmente à mesma dinâmica matemática auto-organizada que uma rede de neurónios a processar informação. Assim, o cruzamento de uma proteína é matematicamente idêntico à geração de um pensamento ou à resolução de um problema. E é aí que entra a noção de cérebro quântico. Não que o cérebro como um todo seja uma entidade quântica, mas antes que os efeitos quânticos ao nível mais baixo não só são capazes de, como necessitam de se ampliar para cima por causa deste arranjo tipo caixas chinesas do sistema nervoso... E através de uma interacção muito particular de vizinho-para-vizinho entre os neurónios a inteligência global, ao nível do cérebro como um todo, emerge.”
Segundo a sua teoria, o cérebro foi de facto desenhado para ampliar estes efeitos quânticos e projectá-los “para cima” para elementos de processamento cada vez maiores, até atingir o nível do cérebro.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Anomalias

• A maior parte das pessoas já teve pelo menos uma experiência que não pode ser explicada pelos meios normais ou descartada como: “apenas uma coincidência”.
• Têm sido estudados registos de experiências de quase-morte que relatam experiências muito semelhantes às de fora-do-corpo.
• As regressões a vidas passadas apresentaram factos obscuros de tem¬pos passados aos quais o sujeito não poderia ter tido acesso e que se revelaram ser verdade.
• Visão remota – a capacidade de transcender o tempo e o espaço para obter informação – tem tido tanto sucesso que os EUA e a União Soviética tinham equipas de visionários à distância a fazer espionagem.
• Existem experiências que demonstram estatisticamente como a intenção humana altera processos quânticos aleatórios.
• Curas milagrosas.
• Sonhos proféticos.

A lista continua. Começa a parecer um pouco duvidoso insistir que todos estes fac¬tos são apenas ilusões, coincidências e fogo-fátuo, e negar que a consciência possa ser uma realidade.

terça-feira, 31 de março de 2009

Consciência

O que é uma definição simples de consciência? Sabe, é a coisa mais difícil de definir.
— Fred Alan Wolf

Nenhum de nós pode escapar sem responder de alguma forma: eu crio realidade, ou sou uma folha ao vento? Sou a fonte que determina as coisas da minha vida, ou a minha vida está no final de uma corrente, determinada num único instante durante o Big Bang?
Nick Herbert fez o doutoramento em física experimental na Universidade de Oxford. Durante anos foi o cientista principal na Memorex Corporation em Silicon Valley, e trabalhou em magnética, electrostática, física termal e óptica. Escreveu Quantum Reality: Beyond the Pbysics, e deu aulas de ciências a todos os níveis (desde a primária à faculdade).
Criou a mais concisa prova matemática do Teorema de Bell (que prova a existência da não-localidade). Neste momento está interessado na consciência: “A minha noção é que a consciência é o maior problema”, diz ele, e que a física se descartou dos problemas fáceis... Podemos encontrar todas as forças e todas as partículas da natureza – a demanda dos físicos – mas e depois? Então teremos mesmo de lidar com os problemas mais difíceis – a natureza da mente, a natureza de Deus e outros problemas maiores que ainda nem sabemos problematizar.”

Por que estamos nós aqui? Bem, essa é a questão principal, não é? Por nós entendo que se esteja a falar de seres conscientes, ou seja, nós.
— Stuart Hameroff, M.D.

A consciência é fundamental a tudo o que fazemos, qualquer sensação, experiência, pensamento, acção e interacção joga com a consciência. Contudo a ciência tem-na examinado com muito pouco profundidade. Nos seus quase 400 anos de vida, “a ciência fez imensos progressos na compreensão do universo físico a todas as escalas, desde o quark ao quasar”, diz Herbert. Mas a consciência continua a ser “um buraco negro intelectual”.
Todo o discurso, acção e comportamento são flutuações da consciência. Toda a vida emerge da, e é sustentada pela, consciência. O universo inteiro é a expressão da consciência. A realidade do universo é um oceano infinito de movimento (Maharichi Mahesh Yogi).
Muitos cientistas, na física como na psicologia, que ainda estão imersos no paradigma materíalista/newtoniano, dispensam a consciência como um produto do funcionamento do cérebro. (A palavra que usam com mais frequência é epifenómeno, que significa basicamente efeito secundário ou subproduto). Basicamente isto significa que “eu” sentir alguém é um acidente “oops” da evolução. E que quando o cérebro morre, o “oops” desaparece e o pacote vai ter com o resto do embrulho ao lixo. A consciência não cabe no paradigma newtoniano. Não é feita de matéria mensurável. Não podemos pôr uma régua na consciência. É por isso vista por muitos cientistas como uma anomalia. “Quando aparecem pela primeira vez anomalias num paradigma”, repara o físico e filósofo Peter Russel, “são normalmente subestimadas ou rejeitadas”.

Um grande reflexo da nossa sociedade materialista é: quem são os heróis nas nossas escolas? As escolas significam educação, conhecimento, aprendizagem – vida mental. Os heróis são os atletas – vida física.

— Will

A pesquisa ao nosso cérebro ajudou a lançar luz sobre estados mais altos de consciência para além de estar acordado, sonhar e dormir. Existem sete estados de consciência. Para além dos três que normalmente sentimos, existe a consciência: pura. É o estado mais simples de consciência humana, um estado silencioso, profundamen¬te instalado, de consciência livre no qual a mente se identifica com e sente o campo unificado de todas as leis da natureza.
— John Hagelin, Ph.D.

Pesquisas sobre o electromagnetismo por pessoas como Faraday, culminando no trabalho de Maxwell no final do século XIX, começaram a fazer parecer que as partículas não eram o catálogo completo do universo.” O fenómeno do electromagnetismo não podia ser explicado segundo os termos dos princípios aceites da física; mas também não podia ser descartado. Assim, contra os ventos prevalecentes da ortodoxia, tornou-se necessário levar os campos em consideração. Tal como diz o Dr. Albert, “fala-se de campos pelo menos desde o início do século XIX, mas durante muito tempo não foram levados a sério.” Foram então aceites como aspectos intrínsecos e fundamentais do cosmo.
Talvez seja a altura de fazer o mesmo com a consciência, e o desafio pode ser semelhante. A consciência é um nível de realidade ainda mais subtil do que as forças ou os campos de forças. Mas se é um nível de realidade, e se a física pretende arranjar uma genuína “teoria de tudo”, a consciência tem de ser incluída.
Todos temos andado a agir, observa Ed Mitchell, dentro de um modelo científico que diz que tudo pode ser reduzido apenas a matéria ou a energia. Tudo é na realidade energia, sendo a matéria uma forma de energia. Ainda, segundo este modelo, a consciência como nós a sentimos é apenas epifenomenal. Ou seja, é um subproduto da actividade cerebral; não é fundamental.
“E no entanto todas as tradições religiosas do mundo disseram de uma forma ou de outra: 'Não, isso não é verdade. É a consciência em si que é fundamental, e a matéria-energia é o produto da consciência.' Este tem sido o assunto básico com qual lidamos há muito, muito tempo sem nunca o conseguirmos resolver com clareza de uma forma ou outra.”

terça-feira, 24 de março de 2009

A Alma está no Cérebro


Emoções, ideias, medos, desejos… e tantos outros aspectos da nossa vida que nos caracterizam como seres humanos derivam das complexíssimas operações do nosso cérebro. De seguida é apresentado um excerto do livro “A Alma está no Cérebro” do escritor espanhol Eduardo Punset que esclarecerá algumas das questões que habitualmente colocamos.

À primeira vista, parece bastante fácil distinguir o que é e onde está a alma. Para começar, alguns animais nem sequer se reconhecem a si mesmos em frente de um espelho. Outros, como os chimpanzés, tal como nós, reconhecem-se e têm consciência de si mesmos. Nós, os seres humanos, possuímos imaginação, emoções e memória: eram estas, segundo o pensamento antigo, as três faculdades da alma.
Mas... onde é que está a alma? Onde é que ela está albergada? Alguns filósofos e teólogos pensavam que a alma estava no coração, e outros, entre eles os primeiros grandes cientistas, opinavam que a alma residia no cérebro. De modo que, ao que parece, a alma fez-se carne.
No entanto, será que com esta simples identificação fica verdadeiramente resolvido o mistério da alma?
A nossa mente é aquilo que somos. Recordações, emoções e experiências acumulam-se no cérebro incrustando-se nas ligações electroquímicas estabelecidas entre os milhões de neurónios que ele contém. A alma ou a psique cabem no pouco mais de quilograma e meio de tecido cerebral, o mesmo que o filósofo Henry More descrevia como «essa desestruturada, gelatinosa e inútil substância». Quase todos os seus colegas pensavam como ele. O que não era invulgar.
Na Inglaterra de meados do século XVII, a alma era um princípio imortal e imaterial que pensa, que sente e que rege o corpo; o cérebro, pelo contrário, parecia uma glândula de aspecto desagradável e de irritante inutilidade. Nesse período da história, alguém inventou a palavra «neurologia». Thomas Willis (1621-1675), juntamente com um grupo de sábios, inaugurou uma nova era: a «era neurocêntrica», na qual nos encontramos hoje, onde o cérebro e a mente são dois conceitos inseparáveis.
Willis estudou ao pormenor a estrutura cerebral e propôs uma nova concepção da mente: para ele, pensamentos e emoções eram tempestades de átomos que ocorriam no cérebro. De alguma maneira, abriu o caminho teórico que haveria de conduzir, vários séculos depois, à descoberta dos neurotransmissores. Se Descartes estava equivocado, se não havia espírito e tudo era matéria, os males da alma seriam necessariamente físicos. Willis propôs então que as perturbações mentais, como a depressão, podiam ser curadas com substâncias químicas e preparados farmacêuticos capazes de restabelecer o equilíbrio do fluido nervoso. Hoje, os fármacos contra a ansiedade ou a depressão, a timidez ou a hiperactividade fazem já parte da nossa cultura.
Formalmente, as teorias de Willis seriam mais parecidas com a alquimia do que com a ciência moderna, porém, é inegável que ele deu os primeiros passos que conduziriam às concepções de «mente» e de «cérebro» que hoje possuímos. Willis inaugurou, há mais de três séculos, a nossa era: a era do cérebro.
Carl Zimmer é um divulgador científico bem conhecido; escreve regularmente nas páginas científicas do New York Times e está a começar a destacar-se como um dos melhores ensaístas no campo da história da neuroanatomia.
Para começar, os paleontólogos asseguram que a ideia da alma parece ser um conceito tardio em relação a outras ideias, como por exemplo a necessidade de fabricar ferramentas. No entanto, é incrível a persistência da ideia de alma, que desde o seu «descobrimento» nunca foi abandonada. De onde nasceu esta ideia? Zimmer assegura que a ideia de alma, ou de algo parecido à alma, surgiu provavelmente há muito tempo, talvez há um milhão de anos, ou há umas quantas centenas de milhares de anos. A ideia de alma evoluiu com o homem e submeteu-se às leis que correspondem aos nossos conceitos, uma ideia à qual aplicámos as nossas previsões e imaginações. «Podemos obter provas desta evolução realizando estudos psicológicos: temos tendência a encontrar uma causa nas coisas. Os nossos cérebros estão programados para perceber as intenções dos outros, mas podemos também identificar uma intencionalidade num círculo que se move num ecrã; se se desloca de um modo concreto, talvez digamos: "Repara, o círculo está a perseguir o quadrado." Assim, nós atribuímos alma inclusivamente às formas abstractas. Trata-se de um instinto muito nosso. Parece-me que é bastante provável que esse instinto, esse desejo de entender as pessoas, terá dado origem ao conceito de alma. E não se trata somente de um desejo de compreender as pessoas que nos rodeiam: na Idade Média julgava-se que até as árvores ou as rochas tinham alma.»
Segundo Carl Zimmer, na Natureza havia almas em toda a parte, porque, sempre que nos apercebemos de algo parecido a uma acção ou mudança, julgamos ver aí uma alma.
Para as culturas antigas, porém, a questão principal neste ponto era averiguar onde é que a alma estava situada. Em relação aos seres humanos, por exemplo, os sacerdotes extraíam o cérebro dos cadáveres quando preparavam a viagem para o além e, no entanto, deixavam intacto o coração porque pensavam que ele era o motor da vida e que, provavelmente, era ali que residia o espírito.
«Sim, no antigo Egipto julgavam que o coração era o centro da vida e, portanto, a alma residia no coração», explicava-nos Zimmer. «Aristóteles também pensava que o coração constituía o centro da vida. Muito pouca gente pensava no cérebro como agora fazemos, como o lugar onde estava situado o nosso sentido do eu, a nossa personalidade, as nossas recordações. O coração, como residência do espírito, foi durante séculos um conceito muito poderoso. Na Idade Média acreditava-se que cada pessoa tinha três almas: uma no fígado e outra no coração; a terceira era a alma racional, a alma do cristianismo, que não estava localizada em nenhum lugar concreto porque se tratava de uma alma imaterial. Assim, o coração continuou a ser considerado como um órgão central no que dizia respeito à alma, daí que existam imagens de Jesus abrindo o seu coração.»
As imagens de Jesus abrindo o seu coração estão relacionadas com essa ideia do homem mostrando-nos o seu verdadeiro eu. O mais recôndito de cada ser estava no coração. Zimmer usa o humor para explicar este conceito: «Jesus não abre o seu crânio e não nos mostra o seu cérebro. Nunca vi uma imagem desse tipo.» Neste aspecto, as ideias culturais são muito persistentes e ainda hoje mantemos frases feitas como «abrir o coração a alguém», «partir o coração», «com o coração nas mãos»; todas elas são uma herança dessa ideia antiga segundo a qual o mais profundo de um ser humano encontra-se, precisamente, no coração.
Até que finalmente, como assinalámos, apareceu Thomas Willis com a sua teoria revolucionária. Ele foi o primeiro a considerar que tudo estava no cérebro. E, de certo modo, referia-se ao facto de que a alma se transforma em carne no cérebro. «Acima de tudo, tratava-se de uma maneira totalmente nova de reflectir sobre a natureza humana», diz Carl Zimmer. «Willis afirmava que a memória, a capacidade de aprender e as emoções eram, na realidade, produto dos "átomos" do cérebro, da química. Ninguém tinha pensado isso antes. Claro está que hoje em dia todos pensamos assim, damo-lo por adquirido; mas quem chegou pela primeira vez a essa ideia foram, no século XVII, Thomas Willis e os seus colegas. Tratava-se de uma ideia revolucionária.»
Willis foi talvez o primeiro a afirmar que a alma é carne e que está no cérebro. Todavia, ele não foi perseguido pelas suas ideias, como ocorreu com outros. Houve grandes perseguições contra filósofos, teólogos e cientistas que professavam ideias parecidas às de Willis. Descartes, por exemplo, teve problemas com a Igreja, e Thomas Hobbes foi perseguido pelos bispos de Inglaterra quando declarou que a mente não era mais que matéria em movimento. O caso de Thomas Willis é diferente, porque ele teve a precaução de deixar espaço para a noção cristã de alma. Segundo Zimmer, o próprio Willis era um cristão tremendamente devoto e não questionava os conceitos básicos do cristianismo. «Queria simplesmente analisar o corpo humano e aprender coisas sobre ele e, pelo caminho, aprender coisas sobre a alma.» De modo que a ele não lhe parecia que pudesse ocorrer qualquer conflito entre anatomia e teologia, e tão-pouco os líderes religiosos de Inglaterra consideraram que as suas ideias e opiniões fossem passíveis de gerar um conflito de interesses. Além disso, Willis era um cientista com muito bons contactos. Um dos seus amigos era o arcebispo de Cantuária, o principal mandatário religioso da Igreja em Inglaterra, de modo que goza¬va de uma certa protecção.
Thomas Willis foi também um pioneiro noutros aspectos. Por exemplo, suspeitou que nós, os seres humanos, temos um cérebro «integrado», ou seja, que herdámos o cérebro dos répteis e que, ao evoluirmos como mamíferos, não nos desfizemos do cérebro dos répteis, antes o mantivemos perfeitamente integrado num cérebro maior. Willis observava o cérebro dos peixes, dos macacos ou das vacas; analisava esses cérebros e estabelecia semelhanças e diferenças. O cérebro humano parecia-se muito com o cérebro de outros animais, e Thomas Willis pensava que, se o cérebro de um animal possuía as mesmas partes que um cérebro humano, então podia ser estabelecida uma correlação entre ambos. Por exemplo, estava convencido de que um cavalo se lembrava de onde é que havia boa comida no prado utilizando para tal as mesmas zonas do cérebro que nós utilizamos para recordar onde está a despensa. A diferença residia basicamente no facto de os seres humanos terem um cérebro maior, capaz de «mais pensamentos». Estas ideias prefiguram na realidade um tipo de pensamento evolucionista, embora Thomas Willis jamais o tivesse expressado desta forma. Para ele era mais uma prova do engenho de Deus como criador, como desenhador do mundo. Carl Zimmer não duvida em afirmar que Willis foi evolucionista duzentos anos antes de Darwin: «Efectivamente, ele proporcionou as provas que Darwin utilizaria, com tanta elegância, para forjar a teoria da evolução duzentos anos depois.»
Há outra peculiaridade fascinante em Thomas Willis... Dizia ele que havia algum tipo especial de espírito que ia do cérebro aos testículos. Como chegou ele a estabelecer uma tal relação? Desde logo, Willis não podia falar de genética, mas sugeriu que havia uma espécie de informação que se transmitia de uma geração para a outra. Zimmer considera que o fascinante de Thomas Willis e da sua época é que simplesmente desconheciam concei¬tos que agora damos por assentes. «Por exemplo, não sabiam nada do ADN. De novo, ele fazia apenas observações e procurava explicações para as observações. Via que as crianças nascem e se parecem com os seus pais, e crescem para se converterem em adultos que se parecem a outros humanos adultos. Pelo que teria de haver algo aí... tinha de existir o que chamaríamos "informação", algo que se transmite para criar outra pessoa. E ocorreu-lhe que o único lugar onde havia ideias era no cérebro.»
Desde logo, se a informação só existe no cérebro e há uma parte dessa informação que passa de pais para filhos sem um motivo aparente, deveria existir uma ligação entre o cérebro e os testículos. «Era evidente: tinha de haver uma ligação.» Willis procurava algo físico, algum tipo de vaso condutor ou algo que fosse directamente do cérebro até aos testículos. Nunca o encontrou. De maneira que esse fracasso deveria ter-lhe dado uma pista de que talvez se tratasse de outro tipo de informação... li o que actualmente chamamos informação genética. Porém, foram necessários séculos de investigação até que se chegasse a esboçar essa noção.
Outra ideia pioneira e fantástica de Willis refere-se à possibilidade de curar mediante processos químicos. Willis estava plenamente convencido de que os fármacos e as manipulações físicas podiam curar todas as doenças. Não tinha nenhuma dúvida a esse respeito. Pelo que, de certo modo, estava a antecipar aquilo que seria a futura neurofarmacologia. «Sim. Creio que, nesse sentido, Thomas Willis desempenhou um papel realmente decisivo», afirma Zimmer. «É algo que costuma passar despercebido: a sua ideia era que se podiam curar todas as doenças mentais através da alteração química da actividade cerebral. Por exemplo, explicava ele que um ataque epiléptico podia ser causado por um descontrolo químico, como a pólvora que acaba por explodir caso não se mantenham certas condições no ambiente envolvente. Tratava-se de uma maneira de raciocinar muito diferente daquela que então imperava, uma época em que as pessoas diziam que os epilépticos estavam possuídos pelo demónio.» E no caso da melancolia, Thomas Willis receitava uma espécie de xarope confeccionado a partir de uma fórmula secreta. E enriqueceu graças às suas tisanas. Administrava-as às pessoas e dizia: «Isto vai curar-te porque modificará a química do teu cérebro.» Na realidade, este é o paradigma com que actualmente trabalhamos: quando alguém toma Prozac ou outro medicamento qualquer, fá-lo com a convicção de que poderá alterar os aspectos fisiológicos nocivos que o estão a afectar e fá-lo também com a convicção de que essa substância química modificará os elementos negativos. «Não é tão difícil transformar as acções do cérebro», explica Zimmer. Na realidade, se bebermos vinho - uma substância química, o nosso cérebro vai modificar notavelmente a sua capacidade de atenção, de percepção e, portanto, acaba por alterar também o nosso carácter. A pergunta é: se actuarmos com substâncias químicas no nosso cérebro, será que o mudaremos do modo que realmente queremos? Serão essas substâncias químicas a melhor maneira de o mudar?
Thomas Willis foi um dos primeiros a abordar as doenças mentais a partir de uma perspectiva farmacológica. Para ele, as perturbações do cérebro podiam ser corrigidas manipulando os «átomos» que o compõem. Até 1630, a melancolia - a que actualmente chamaríamos depressão - era tratada com recurso à astrologia, actuando sobre os quatro humores de Galeno e rezando a Deus.
Willis revolucionou o tratamento desta doença e começou a recomendar, como terapia, um xarope e conversa agradável. E embora os fundamentos fossem os correctos, a eficácia do seu xarope de aço e centopeias trituradas era mais que duvidosa. Segundo ele, este tratamento eliminava os elementos responsáveis pela melancolia: os corpúsculos de sal e sulfureto do sangue.
Durante trezentos anos, a psicofarmácia foi mais um sonho do que uma realidade. Com Sigmund Freud impôs-se a psicanálise e abandonou-se o uso de fármacos para tratar as doenças mentais. O ressurgimento das drogas só se produziu depois da Segunda Guerra Mundial, quando se começou a utilizar a torazina e outros componentes químicos para melhorar determinados achaques. Os neurocientistas descobriram que estas drogas podiam modificar a concentração de dopamina e de outros neurotransmissores. De repente, parecia que era apenas uma questão de ajustar os níveis químicos, exactamente como Willis havia vaticinado.
A fluoxetina, mais conhecida pelo seu nome comercial, Prozac, utiliza-se actualmente para tratar a depressão e a perturbação obsessivo-compulsiva. Quando foi lançado no mercado, em 1990, operou uma revolução na psicofarmácia devido aos seus reduzidos efeitos secundários. Não criava habituação e os efeitos de uma sobredosagem não eram muito graves. A fluoxetina actua sobre o sistema nervoso central; mais concretamente, sobre os níveis de serotonina. Pensa-se que a depressão está relacionada com um desequilíbrio nos níveis desse neurotransmissor, de modo que um nível baixo de serotonina entre os neurónios provoca a depressão. Uma vez que a fluoxetina evita que as células captem serotonina, a quantidade do neurotransmissor entre os neurónios será maior. Como sucede com a maioria dos psicofármacos, desconhece-se o mecanismo de acção preciso desta molécula: a única coisa que podemos observar são os seus efeitos.
Willis ficou rico com os seus tratamentos, mas provavelmente não daria crédito aos valores que estas moléculas mobilizam hoje em dia. Os antidepressivos, por si só, movimentam mais de doze milhões de dólares nos Estados Unidos.
Actualmente existem drogas para uma grande quantidade de perturbações mentais. O modafinil melhora a memória e levanta o ânimo; a ritalina costuma ser utilizada em crianças com défice de atenção e hiperactividade. Há drogas para dormir e drogas para manter-se desperto.